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Não sei se você irá se lembrar de mim, afinal, são inúmeras as
meninas e meninos, que você visita todos os anos, mas se você se esforçar um
pouquinho, talvez se recorde daquela menininha, que ficava debruçada na janela,
em todas as noites de natal, à sua espera.
Não é tão difícil
de se lembrar, pois você sempre esquecia de meu endereço, das minhas bonecas,
dos meus sapatos e até do pão, que certamente seria minha única refeição da
noite.
Eu te esperei
durante toda uma vida. Te esperei sem reclamar, sem te exigir nada, sem mágoas,
sem revoltas; apenas esperava, como ainda te espero.
Às vezes, eu fingia
dormir, deixando os olhos entreabertos, na esperança de poder vê-lo chegando. Na
verdade, eu poderia até ficar de olhos abertos, pois não havia luz elétrica em
minha casa e, de olhos fechados ou não, não faria diferença. Será que foi por
falta da luz, que você não enxergou minha casa? Creio que não, afinal, você só
saía durante a noite, em meio à escuridão, para fazer a entrega dos presentes e,
mesmo assim, sempre esquecia de meu endereço, com isso, cheguei a pensar, me
desculpe, que não soubesses ler ou que não compreendesse as letras garrafais de
uma menininha, que escreveu todas aquelas cartas, tendo o coração cheio de
esperanças e acreditando, que pudesse ser atendida.
Eu ainda tenho uma
daquelas cartas, no início, eu achei uma atitude meio idiota, em guardar um
pedaço de papel, talvez eu não tenha mesmo guardado só um pedaço de papel, mas
uma gotinha de esperança, de poder colocá-la esse ano em minha janela e fazer
outra vez todo aquele ritual da espera.
Ah, Noel! O tempo
passou, eu fui crescendo...crescendo... e hoje estou aqui, como se nada tivesse
acontecido, como se nada tivesse acrescentado, como se nada tivesse modificado
dentro de mim. Estou aqui, mais uma vez, para fazer-te um outro pedido, bem
diferente daqueles tão simples, que na época, tornou-se difícil de você
realizá-lo. Eu preciso de um favorzinho teu, um pequenino favor, pois tenho
fobia em direção, eu tenho medo de dirigir, por isso gostaria de ter emprestado,
por uma noite, o seu trenó. Eu preciso que você me ajude a levar alegrias, para
aquelas crianças, que estão deitadas em seu leito de dor lá no hospital da Cruz
Vermelha, você poderia passar bem rasteiro em suas janelas, deixando um facho de
luz, para que ilumine suas vidas e, dentro de cada quarto, um rastro de
esperança, fé e certezas..
Depois, Noel, nós
sobrevoaremos toda extensão dos morros, certamente, encontraremos olhinhos
pidonhos contemplando todo o céu, na esperança de te encontrar e, lá do alto,
nós jogaremos os cadernos, lápis, borrachas, livros e, também os brinquedos,
para que nossas crianças, futuros cidadãos, possam deixar as ruas e ter um
destino diferente daqueles meninos e meninas, que certamente os esqueceu, anos
atrás.
Ah, Noel, quero que
passe também lá no asilo, aquele lugar triste e solitário, que as pessoas
costumam mascarar, dando um belo nome, de Casa de Repouso, mas na verdade é reta
final, lixo humano, depósito de vidas inúteis, balança, que diariamente pesa os
fardos deixados por suas famílias.
Você ficará feliz
Noel, ao ver o sorriso vazio de nossos velhinhos, se emocionará, com suas
histórias de vidas e muitos ficarão estupefatos, com tua presença e outros ainda
assim, dirão: Eu não falei que ele existia!
Pois é, quantos
daqueles velhinhos não passaram toda uma vida te esperando e acreditando, em sua
existência? Sabe o que é isso, Noel? Isso é acreditar, em seus sonhos e deles
não desistir. É acreditar, por mais impossível que seja, mesmo assim será válido
ter sonhado.
Aqueles velhinhos,
que visitaremos, certamente ficarão felizes com uma camisola nova, um pijama, um
lencinho de mão, porém, ficarão bem mais felizes com a lembrança da “Lembrança”,
do não esquecimento, de ter alguém lhes visitando, alguém que seja paciente e os
deixem falar, desabafar a dor do abandono, alguém que os ouçam de verdade, que
aceite suas lamúrias, ranhetices e, que os compreendam.
É, Noel, nossa
noite está prometendo e você será meu “trenorista” e, faremos as viagens mais
belas sobre as casas sem teto, sem janelas, mas com portas. Portas essas, que
sempre apontam para as ruas, aquelas que ficam à beira das calçadas tendo como
abrigo, as marquises e as estrelas do céu. Para estes, eu não levarei presentes,
pois o que precisam, não é alegria momentâneas, os presentes, certamente seriam
vendidos na manhã seguinte, para a compra de drogas, álcool e outras coisas sem
importâncias. A eles, eu levarei uma palavra de alento, o abraço de mãe, um par
de chinelos para seus pés descalços e uma ceia decente que forre o estômago
vazio.
A nossa noite,
Noel, será emocionante e, enquanto estivermos visitando meus amigos desprovidos,
estarei ao mesmo tempo realizando o sonho da menininha, que ainda vive aqui
dentro e, quando tudo terminar fecharei meus olhos e deixarei a criança
renascer, então Noel, passe seus braços sobre meu ombro, aconchegue-se a mim,
para que possa repousar em teu peito, ouvindo a canção, que existe dentro de ti.
Embala-me ao sonho, de uma noite encantada, em meio à magia que espero não ter
fim, mas... não corra, pois não terei pressa, em regressar à minha realidade.
Quero poder viver aquela menininha e quem sabe, poder ter realizado o sonho da
boneca de cabelos loiros.
Há muitos anos falo
nela, todos ouvem e você também, mas ninguém faz nada, como se não a merecesse.
Sei que Deus presenteou-me, com duas lindas bonecas, que após nove meses, as
tive em meus braços, mas é diferente Noel, hoje as meninas não se importam com
as bonecas, mas eu sou de “ontem” e preciso resolver hoje, esse vazio, mas, se
por ventura, mais uma vez esquecerdes de meu pedido, não ficarei magoada, muito
menos triste, deixe-me dormir então e, dê ordens às suas renas, para que tenham
cuidado ao passarem entre as estrelas, que não façam tanto barulho, pois
estarei sonhando, mais uma vez, de olhos ainda, que fechados, porém tranqüila,
pois bem sei que estarás o tempo todo ao meu lado. E quando o alvor do dia
revelar-se acima das brancas nuvens e, ainda estiver dormindo, toma-me, em teus
braços, com zelo, com carinho, o mesmo que tive, com você durante todos esses
anos e, deita-me em meu leito de ilusão, mas, por favor, não esqueça desta vez,
de deixar a meu lado, um bilhetinho informando: Eu estive aqui. Eu existo! Só
assim terei a certeza, de que não estive sonhando mais uma vez...


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