Lembro-me muito bem, mamãe em seu vestido surrado e desbotado de tantas lutas, abanando o fogão à lenha. Era natal e no pequeno rádio uma canção, que fazia com que acreditássemos, que aquela seria realmente uma noite feliz.

Cresci ouvindo essa canção e vendo triste mamãe, que nada tinha a nos oferecer a não ser seus gritos e um olhar vazio. Vazio de esperança, vazio de amor, vazio de uma vida vazia.

Éramos quatro irmãos e sabe Deus se na cabecinha deles passavam os mesmos sonhos, que existiam em mim. Era natal sim e, na pequena sala havia em um dos cantos uma lata encapada com folhas velhas de jornal, onde um galho seco recoberto com algodão simbolizando o nosso natal.

Nos momentos vagos, soletrávamos sílabas por sílabas formando assim a mesma palavra,que expressava nosso abandono, nossa solidão. Havia também uma mesa, que constantemente se encontrava vazia. Éramos pobres, tão pobres que não tínhamos sequer uma só migalha de pão para comemorarmos a pior noite de nossas vidas: A noite de natal.

Mamãe, pobre mamãe, nos colocava cedo na cama dizendo que Papai Noel  passaria por nossa casa tão logo dormíssemos. Eu, na minha ilusão de menina sonhadora fingia dormir só pra ver Papai Noel chegando de mansinho e deixando ao nosso lado os brinquedos tão esperados. Só que papai Noel não cumpriu o que mamãe nos dizia. Ele nunca aparecia e, eu só queria tocar-lhe a barba branca, apertar-lhe as mãos e ser até um pouco ousada e dar-lhe um beijo.

Ainda de olhos fechados eu pensava: Noel deve ser bonzinho, caso contrário as outras meninas não estariam exibindo suas bonecas , seus vestidos novos, seus sapatos...

Os minutos seguiam  o rumo das horas e, a claridade da lamparina dava vida aos meus sonhos que pelas paredes bailavam serenamente. Meus irmãos adormecidos tinham um semblante calmo e esperançoso. Eram anjos dormindo com o som roncante de um estômago que naquela noite não havia recebido visitas de alimentos.

Minha ansiedade era tanta, que inúmeras foram as vezes em que pude ouvir o galopar das renas, que passavam em disparadas pelas ruas mal calçadas e, quando eu corria à janela, lá só estava minha ilusão mais uma vez desiludida. Noel nunca apareceu, Noel mentiu, me enganou. Eu só não conseguia entender por que ele visitava as outras meninas e não a mim, também não conseguia entender por que mamãe orava tanto a um Deus maravilhoso,  poderoso e justo e ao mesmo tempo tão perverso.

Por que Deus esqueceu de dar a Papai Noel o endereço da velha casa de pau a pique? Por que Deus permitiu que meus irmãozinhos ficassem sem entender o porquê de tanto abandono? Por que mamãe orou tanto a um Deus  e Ele permitiu que travássemos uma luta desesperadora, com o estômago, que irritado só gritava por comida.

Eu era apenas uma criança, como outra qualquer, sem maldade e cheia de sonhos. Mamãe não sabia mais o que inventar nas manhãs de vinte e cinco. Todos os anos as mesmas palavras:

― Vai ver, Papai Noel enguiçou no caminho ou se perdeu no meio de tantas estrelas. Passei a acreditar que Noel era o espírito mentiroso de natal. Ele nunca existiu, nunca gostou de meninas pobres, remelentas e de cabelos alvoroçados.

Na manhã seguinte meus irmãos e eu ficávamos sob a sombra de um frondoso pé de manga rosa, que nos dava o melhor fruto e a sombra mais gostosa do lugar. Ficávamos esperançosos de que Papai Noel pudesse realmente ter se atrasado e passar bem rasteiro pertinho da gente. Que nada! Pensei então que pudesse encontrá-lo entre as nuvens que naquela manhã mesclava o azul do céu, não o encontrei e uma fúria então surgiu, em meu peito. Algo estranho dentro de mim mudava toda aquela inocência  em relação a papai Noel.

Não sei se as lágrimas que derramei foi por decepção ou por não querer acreditar no desejo, que dentro de mim falava mais alto. Desejei que Noel despencasse de seu trenó ridículo e mentiroso, pois só assim ele morreria de vez de minhas ilusões, para que no próximo ano não tivesse de passar por tudo outra vez.

Eu só queria um presente, uma boneca, que fizesse com que eu acreditasse, que aquela canção, que estava tocando era  realmente algo que simbolizava a noite mais bonita e mais feliz na vida das pessoas. Enganei-me e aos dez anos assassinei Noel. Asfixiei-o entre as páginas de um livro o qual não pretendo ler. Aprisionei-o no livro do esquecimento, para que não mais iluda as meninas pobres, que hoje, ainda se emocionam ao ouvir velhas canções natalinas.



 

Clique na figura
envie sua mensagem



 

Desde 25.05.2005,
Número de Visitas

Home

Direitos autorais registrados®

Voltar

Menu

Fale Comigo