Era uma data especial, pelo menos para ela, que ainda possuía um restinho de esperança, de que a vida voltasse a lhe sorrir.

Na varanda da casa andava, de um lado, ao outro ansiosa, nervosa, como se estivesse a espera do namoradinho, que lhe visitara pela primeira vez. Na verdade não deixava de ser um namorado. Ela o via desse jeito apesar das coisas não estarem tão bem assim. Era de certa forma conveniente fechar os olhos a determinados fatos, para  que continuasse ao lado dele.

A noite estava agradável. Não havia luar, mas as estrelas marcavam presença na imensidão escura. Um vento morno dava asas a sua imaginação fazendo com, que não esquecesse de nenhum detalhe. Na cama a linda colcha branca usada na noite de núpcias. Quantas recordações... Sobre a colcha, a camisola de seda diferente daquela, que marcou sua primeira noite de amor. Dessa vez escolheu a cor preta, sensual, irresistível. Mas, irresistível era tudo o que queria ser naquela noite...

Ela estava elegante no vestido novo, que comprara cujos detalhes laterais acentuavam a perfeita silhueta, que na sua idade, dava um banho nas cocotinhas quase todas disformes, isso sem contar, com os olhares dos rapazes, que sem temor algum faziam questão de dizer: Ah... se eu tivesse uma sogra dessa!!!!

Ela estava esperançosa, de que aquela noite seria diferente de tantas outras. Preparou com carinho o jantar simples, mas como sempre deveria estar uma delícia. Não quis arriscar esperando ser convidada para um restaurante e, em último caso até mesmo que fossem para um self service, afinal, ao sair pela manhã para o trabalho ele nada comentou com ela. Achou melhor preparar e ao mesmo tempo fazer-lhe uma surpresa. No centro da mesa um vaso, com flores acompanhadas, de um bom vinho. As taças, que restara dos presentes de casamento e as velas, que faria do jantar o mais romântico, inesquecível...

Sua pele parecia uma seda retocada, com uma leve camada de pó compacto. Seus olhos amendoados e claros realçaram-se com um leve risco preto do lápis dando a eles, uma sensualidade e uma linguagem visual.

Na boca...Não era necessário um batom. Mesmo assim, fez questão de usá-lo, afinal, há de convir que uma tela  só estará completa, finalizando-a com uma bela moldura e, assim eram seus lábios... Seus lábios carnudos emolduravam seu rosto, por vezes um tanto triste.

Era bem tarde quando ele chegou. Na sala, apenas a luz que vinha das iluminarias, deixando uma penumbra suave e envolvente. Ele entrara assoviando pela área de serviço e, ela segue ao seu encontro.

― Oi filha, tudo bem? Tive de ficar até mais tarde, sabe como é... enquanto o forno não parte, temos de ficar... preventiva tem sempre esses imprevistos. Disse.

Ele trabalhava em uma metalúrgica no município vizinho, mas que de carro levariam apenas uns quarenta minutos do trabalho para a casa, mas...

Ela apenas o ouviu. Já sabia das histórias e quando não era essa eram os acidentes, que deixavam a Dutra intransitável.

Com um sorriso morno nos lábios, esperava que ele a elogiasse ou a abraçasse e dissesse da saudade, que sentiu durante o longo dia de trabalho. Infelizmente ele vivia alheio a tudo ou quem sabe, também estava empurrando, com a barriga uma situação, que se tornara cômoda para ele.

― Ué... Você está pintada? Vai sair ou está chegando agora? Perguntou calmamente sem emoção alguma na voz.

O sorriso morno, em seu rosto congelou. Nada respondeu, pois nada tinha a responder. Ela não estava pintada e sim maquiada. Pintada estava a vida... Cores e mais cores sobre o tom opaco, que procuravam assim mascarar, encobrir o buraco, a fenda, o rio, a vala, o vazio que reinava entre eles.

Ela não queria aceitar. Ele não tinha coragens para decidir, por um fim e, que fosse amigável, do qual poderiam sair sem feridas ou cicatrizes. Ali ela percebeu que não tinha mais por que lutar. Deixaria passar, em branco todas as outras datas,  que um dia foi comemorada como mais um ano, de amor e união, mas que agora contariam apenas os tempos.

Não houve jantar... não houve emoção... não houve nada além de mais um dia de rotina.

Como todas as noites ele caminhou até a sala de vídeo, colocou um filme, tirou os sapatos e ali ficou. Não falou em jantar, deveria estar farto de comer poeiras na estrada e, agora queria apenas relaxar o corpo quase sempre cansado.

O silêncio, que invadiu a casa foi quebrado por ela, ao abrir a garrafa de vinho. Encheu uma das taças. Mecanicamente subiu as escadas, retirou da cama a camisola, sufocando-a na gaveta. Despiu-se do vestido novo, que não foi notado. Com um banho retirou do corpo o perfume e o desejo acalentado e, logo após fez o trajeto de todas as noites, em busca de companhia. Seu fiel amigo computador.

Um gole de vinho...

O sabor salgado das lágrimas...

Um soluço...

Uma palavra amarga fugindo, pelo canto da boca...

Uma palavra digitada, mascarando o momento...

Uma frase...

Um texto...

Um poema...

Um e-mail...

Uma dor...

Adentrou a madrugada assim até que, ao romper da aurora decidiu por um final... Independente de ser ou não feliz, ela decidiu!

Retirou dos pés as amarras, do coração a esperança e, de sua vida a covardia e decidida, determinou que fosse assim. Nada perguntou a ele. Apenas decidiu pôr...

Um FIM.
 



 

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