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Naquele dia ao sair do trabalho em companhia de meu amigo Jota, o qual me economizava um bom trocado ao final de cada mês, com sua abençoada carona, era de costume fazermos o mesmo trajeto todos os dias, ouvir as mesmas músicas e, praticamente os mesmos comentários sobre trabalho. Só que naquele dia, havia algo no ar, pressentia que alguma coisa estava por acontecer, mas não sabia o que era.

Continuamos em nosso trajeto e, pude ver algo belo no local, por onde todo o dia passava e nunca havia percebido. O vento morno, embalava as folhas das árvores, que nos presenteava com seus verdes, dando à tarde um toque todo especial.

Nada comentei com Jota, para  não desviar sua atenção ao volante, então segui quieta em meus pensamentos e esperando algo, que sabia que estava para acontecer.

Estávamos passando diante a uma escola pública, quando de repente vislumbrei-me com a cena mais linda, naquele entardecer.

Sem que percebesse, de minha boca saíam palavras entorpecidas de encantamento, que atropelavam umas às outras numa disputa em querer se exibir, diante de uma cena que crescia de maneira disforme.

— Olhe Jota! Você já viu cena mais linda que essa? Perguntei.

Jota olhou-me, deu  meio sorriso e nada disse, talvez para não quebrar todo o entusiasmo, que acabara de assistir. Eu não parava de falar, era como uma grande explosão aqui dentro, espalhando estilhaços de alegria por todos os lados, até que Jota resolve olhar na mesma direção, onde caminhava o meu olhar.

— Engraçado, Nádya, como podem duas pessoas ver a mesma cena, em diferentes formas? Perguntou.

Com essas palavras, percebi que meu amigo, assim como tantas outras pessoas, só conseguiam ver apenas o que lhe convinha ver, enquanto eu, não só via, como conseguia enxergar.

Jota diminuiu a velocidade e, passando lentamente, retira dos olhos, a faixa que os vendava, impedindo-o de ver tamanha beleza.

Eu presenciei um grupo, de crianças saindo da escola, em meio a um alvoroço entre risos  e atropelos, que mais se pareciam com um bando de passarinhos saindo em revoada, brindando ao cair da tarde, com seu canto e vôo rasante.

Eu consegui ver beleza nas perninhas, que encardidas ou arranhadas, levantavam poeiras, em meio às brincadeiras que faziam, no chão de barro diante a escola.

Havia pureza na cor de abóbora das blusas, que juntas formavam um imenso jardim de sempre-vivas.

Haviam anjos nos cabelinhos encaracolados e desalinhados, pela mão do vento morno, que também aderiu à brincadeira

Havia “Inocentes Cidadãos” dentro de cada uma daquelas crianças, que certamente  merecia e merece ter de tantos outros, o  devido respeito e a visão de uma forma não deturpada.

Eu viajei na euforia da garotada, que acabou despertando em Jota, um novo conceito de ver o mundo.

Meu contentamento era tanto, que poderia descer do carro para  absorver  melhor, aquela explosão de vivacidade.

Não consigo olhar para eles e ver outra coisa, que não seja pequeninos passarinhos criando coragens e, a cada dia conquistando novas longas distâncias, sem temer o bater das asas. E, naquele momento, batiam suas asinhas em direção ao ninho, felizes da vida, após uma jornada de trabalho escolar.

Às vezes quando não ia de carona, ficava observando-os ao adentrar a porta do ônibus, em uma euforia e, com um humor que não conseguia ver nos rostos  das pessoas que os olhavam com um olhar discriminador e atravessado, esquecendo-se que também foram crianças.

Convém que minha visão está correta, quando afirmo, que eles estão além de crianças rotuladas, eles serão o futuro de um país, que pouco se importa com seu presente.

Aquelas criaturinhas, por muito tempo iluminaram minhas manhãs e, enfeitaram de brilhos, o meu entardecer. Foi por isso, que aquela cena ficou registrada em minha memória, de uma forma tão especial, tão singela, tão pura, recheada de inocência e, uma extensa cobertura de vida.

Hoje, quando me pego olhando para o céu, em quase todo entardecer, contemplando as aves em seus vôos harmônicos, lembro-me daquele dia, daquela tarde e de meus passarinhos, que em revoada descompassada, retornam felizes ao ninho.

 

 

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