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Lembro-me de sua forma esguia, imponente,
majestoso, protegendo e acolhendo todos, que por ele passavam.
Quando
transpassava suas grades, diante de meus olhos despontava a amplidão de um
horizonte repleto de conhecimentos, de uma magia transmitida, por excelentes
mestres, que se doavam à arte de ensinar.
Através daquele
portão tornei-me profissional da educação, com um orgulho que não cabe em mim.
Sou professora e, a cada dia amo mais e mais essa profissão, que não é
valorizada como deveria ser.
O portão da
escola se faz presente em minha vida, com recordações alegres, outrora tristes.
Houve momentos difíceis pelos quais passei e, que às vezes despertam um fiozinho
de dor em minhas lembranças. Momentos em que pude sentir na pele a humilhação
em ter de deixar os estudos, por não ter mais a bolsa integral, que os garantiam
a mim. Tristeza, por ter de levar para casa sacolas de alimentos que garantia o
meu jantar e de meus irmãos, graças à bondade da Madre Cristina.
Hoje ao passar
em frente ao Colégio Nossa Senhora do Rosário, sinto uma saudade imensa dos
momentos ali vividos. Lá eu cresci como ser humano, com dignidade, respeito e um
olhar transformador para as adversidades da vida.
Tudo ou quase
tudo que sou, teve início através daquele portão, minha primeira toalha de
etamine, bordada em pontos de cruz, as pinturas em tecidos, os artesanatos, as
roupinhas de bebê, mosaico e as primeiras orações a Deus, ensinadas pela amável
Madre Eleonora.
Que saudades
sinto do meu professor de Educação Artística, que por mau comportamento,
colocou-me na última carteira, para que fizesse uma redação. Eu a fiz e, ele não
acreditou em mim, pedindo então que elaborasse outra. Daquele dia em diante, meu
professor passou a ser meu incentivador na escrita e eu, menos levada.
Não sei onde e
como ele deve estar agora, sei apenas da vontade de encontrá-lo e poder
agradecer por tal castigo que despertou na menina pobre e sonhadora, a escritora
dos pequeninos e a poetisa romântica e sensível, que se faz ao discorrer sobre o
amor.
Através do
portão do colégio alcancei horizontes, conheci países e maravilhas como a
Cordilheira do Himalaia e poder ver o pôr do sol no Monte Fuji, as Ruínas da
Grécia, até me perder em meio a tantas estrelas e galáxias.
Diante daquele
maravilhoso portão fiz grandes amigos e vivi grandes amores, como também vi
partir ainda jovem, o amigo que se entregou às drogas, a amiga que cometeu
suicídio e ver morrer em vida, seus pais, por tamanha desolação.
Neidinha, minha
saudosa e querida amiga, que também se nutria de sonhos, com muito sacrifício
concluiu o curso de formação de professores, mas nunca exerceu a profissão, pois
quem lhe dava forças, faleceu de câncer de mama e, temendo talvez a solidão,
uniu-se ao namorado boêmio, que a deixou com um filho nos braços, dependendo da
caridade alheia. Dia dezoito de novembro completará oito meses, em que minha
amiga, aos quarenta e cinco anos partiu para não mais voltar. Tal qual sua mãe,
ela faleceu de câncer.
É no portão da
escola, que vivenciamos fortes emoções como a dor e a alegria. Nele decidimos
nossa vida, nosso destino e o que faremos de melhor em nosso benefício. A opção
está em nossas mãos, podemos ser heróis, bandidos, médicos salvando vidas ou
assassinos tirando-as de alguém. Podemos ser diretores, empresários, gerentes de
uma empresa ou simplesmente gerente do tráfico de drogas de um morro qualquer.
Podemos ser diretores de uma escola ou acabar nossos dias limpando seu chão.
Minha amiga de
olhos azuis, hoje administra a empresa da família, no centro de Campo Grande.
Seu irmão foi para os estados Unidos e não mais obtive notícias dele. Meri é
enfermeira, Herondina é ginecologista e minha amiga portuguesa herdou a rede de
açougue de seu pai.
O portão do
colégio pelo qual passava todos os dias, não é diferente de tantos outros. Somos
nós os responsáveis por tais mudanças . Não há escola melhor nem pior, o que
existe é o interesse ou falta dele, para o que deve ser mudado. Devemos sonhar
alto e acreditar que os sonhos tornam-se reais na medida em que o desejamos.
Eu acreditei
QUERIDOS ALUNOS e, por isso participo com vocês desse trabalho, no qual peço que
expressem suas emoções ao falar do portão de nosso colégio, que está se
fechando para sempre.
Quero que
coloquem em folha branquinha, o colorido de suas lembranças alegres, o cinza de
suas tristezas, a interrogação das indignações, mas sempre com um olhar
positivo, capaz de recriar o que nos parece estar perdido e, para que isso
ocorra, é necessário um grande QUERER.
Por isso AMADOS
ALUNOS, pela dedicação, confiança, credibilidade depositada em vocês, que eu,
uma simples educadora, lhes peço: Sejam vocês as luzes do amanhã e não as
trevas. Sejam as transparências da sabedoria e não a escuridão da ignorância.
Façam das dificuldades e pedras encontradas no caminho, o patamar para o sucesso
que lhes esperam.
O MEU PORTÃO
deu-me sabedoria para ver o mundo e, campos verdejantes onde cultivei flores,
cujas sementes as ofereço, pois acredito em vocês, que merecem e devem
conquistar seu espaço em bases sólidas, para que tempestades e vendavais não
tenham como destruí-lo e, isso AMADOS ALUNOS, vocês só encontrarão ao transpor
o imenso portão que todos os dias os esperam de braços aberto, para o verdadeiro
encontro com o conhecimento, com a educação, que é direito de todos.
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