Era impossível não balançar a cabeça num ritmo frenético, alucinante ao ouvir o som estridente das guitarras dos Beatles, que cantava e encantava o mundo. Nossa televisão, que na época só era colorido, devido o papel mesclado que colávamos diante a tela, para enganarmos a nós mesmos, podia-se presenciar a loucura e os delírios dos jovens, que desmaiavam, em meio à multidão, que se formavam para assistir ao show.

Eles eram a paixão do momento e, a minha também. Eu os admirava e, conseguia até acompanhá-los na música com o meu inglês sem sentido, improvisado e totalmente errado aos treze anos de idade. Eu os via através da tv e os ouvia no pequeno rádio à pilha e, escondida de mamãe balançava a cabeça, sem me importar com um possível torcicolo.

Com todo o cuidado e cautela passei a fazer pequenas transformações em meu vestir, em meus acessórios, em meu cabelo e, até meus cadernos escolares sofreram essas transformações.

Meu cabelo era o tipo conhecido como corte Romeu, minhas saias xadrez, sapatos saltos, plataforma acompanhado dos inúmeros tombos, por falta de equilíbrio e pelas pernas, que na ocasião eram finíssimas, mas valia a pena, pois eu queria ser vista como a garota que acompanhava o ritmo da época, queria ser vista como uma garota “prafrentex” como eram conhecidas as jovens de minha idade.

Meu sonho transformador durou pouco tempo, até mamãe descobrir minhas façanhas, que eram sempre feitas às escondidas na casa de minha amiga, onde guardava todos os apetrechos, que por momentos faziam com que me sentisse uma jovem interada e atualizada.

Vivi às escondidas momentos, que hoje estão registrados, em minhas lembranças e, que por vezes levam-me a balançar a cabeça num leve ritmar do iê, iê iê, porém...

Nada é eterno! E assim foi comigo.

Mamãe descobriu minhas façanhas de jovem, que queria apenas ser como as outras meninas, nada, além disso, mas ela era muito rígida e, como diria na época: Cortou meu barato!

Eu vivia no mundo da lua e sonhando com coisas impossíveis para mim e para a condição de vida que levava. Era pobre, estudava em colégio de bacana, com bolsa de estudos doada pela Feira da Providência, mas isso não impedia de sonhar, com algo melhor ou até mesmo de forçar um desmaio ao ouvir a banda que me encantava.

No ano de 1972, surge com força total a geração independente, com visão própria e bem criativa.

Os jovens tinham estampado no rosto a palavra liberdade. Os trajes, vestimentas tinham uma linguagem própria, totalmente descontraída. As túnicas de crepe indiano e as calças largas, denominadas como pata de elefante, davam um ar de liberdade.

Era o momento das anáguas, das saias estampadas, com bustiers e jaqueta de brim. Eu enlouqueci!!!

Os cabelos tornaram-se rebeldes e, nessa rebeldia encontrei-me. Meu cabelo na verdade era uma juba. Minhas unhas eram coloridas com esmalte bem escuro e, eu adorava mascar chicle, isso durante todo o dia e, em qualquer lugar. Havia em mim uma necessidade enorme de mudanças, de querer mudar afinal, invadia as ruas a moda e o movimento hippie, a tribo hippie e, lá estava eu novamente, quem sabe querendo me encontrar.

Eu aderi a moda graças a minha tia, que era proprietária de uma confecção e constantemente nos levava roupas, tanto as da fábrica, quanto as que não mais usaria em minha prima e, eu as aproveitava e as incrementava com miçangas, paetês e outros motivos usados na época...

O black passou a ser beautiful e o unissex surge para banir o preconceito entre homens e mulheres. Agora todos navegariam no mesmo barco.

Eu queria mudar... mudar de forma brusca... uma transformação da noite para o dia... eu queria me encontrar e nessa busca acabava me perdendo. Eu queria ser igual às outras meninas e acabei esquecendo de ser eu mesma, de viver minha individualidade, de viver o meu gosto, o meu mundo, minha realidade e acabei sendo dominada, por algo imposto por uma sociedade. A moda!

Hoje, sem mais adentrei meu quarto, parei diante ao meu espelho, soltei os cabelos, balancei minha cabeça e, deparei-me com uma louca desvairada rindo do que via refletida no espelho. Hoje seria ridículo sair assim de casa e, certamente alguém me jogaria pedra ou perguntariam: De que sanatório saiu?

Foi legal ter vivido toda aquela fase, toda uma experiência e foi por isso, que senti uma vontade de escrever sobre momentos, que guardo na lembrança, com um carinho todo especial. Talvez não tenha ordenado os fatos como devem ser, porém o mais importante pra mim agora, é relatá-los de meu jeito, sem ter de usar de métodos ou seguir regras imposta por outros, sem querer ser igual a alguém. Eu quero ser eu mesma nesse instante, nesse momento meu. Não quero escrever assim, porque alguém escreve assim... eu me encontrei, sem maquiagens, sem rebeldias, sem roupas extravagantes, que possam ocultar-me.

Hoje meu gosto está bem definido. Gosto de música instrumental, boleros, aprecio o bom vinho e não abro mão de meu chocolate! Adoro meu jeans velho, rasgado e top. Gosto de praia, caminhar na areia e sentir o vento suave tocando em meu rosto. Amo a noite e sou apaixonada pelo luar. Curto filmes românticos, amo minha família, meus amigos e realizo-me em compor poesias.

Quanto eu mudar amanhã ? Ah, quem sabe! Tudo é possível...

A vida é uma completa mudança...ontem o dia estava lindo, ensolarado e hoje, amanheceu chuvoso e frio. Pode ser que amanhã ele mude novamente, mas o “dia” será sempre “O DIA”. Poderá haver sim novas mudanças, mas agora, consciente do que quero e, espero para mim, pois aprendi a tempo, que as mudanças não devem ser feitas no lado externo e sim no interior de cada pessoa e, eu optei por essa mudança e, mudando...

Eu me encontrei!

 

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