É incrível o poder das palavras, sua força e, como as pessoas tornam-se pequenas diante dos seus atos.

Penso que é correto, antes de abrirmos a boca ou até mesmo fazermos um gesto, que julgamos ser talvez insignificante e, que após alguns segundos se apagará, sem deixar seqüelas ou marcas, analisemos o estrago que ele poderá acarretar na vida de uma pessoa.

Quantas vezes ouvimos de alguém, palavras que gostaríamos de nunca ter ouvido, pois elas nos acompanharão pelo resto de nossas vidas e, certamente estarão ali como um peso morto, uma bagagem sem nada dentro e, que teremos de carregar sem ter com quem dividir tamanho peso.

Hoje, quando tento assistir a um filme de terror e não consigo, por pavor, medo, terror ou qualquer outro sinônimo que possa substituir o sentimento de pânico, que surge dentro de mim, automaticamente lembro-me me uma professora, que por infelicidade passou por minha vida quando cursava a segunda série primária na Escola Pública Presidente Artur Bernardes, em Campo Grande, no ano de 1965...

O relógio despertava as seis da manhã todos os dias, saía da cama com uma preguiça enorme, em direção ao chuveiro de água fria, pois naquela hora não havia como esquentar a água no fogão à lenha, que ficava fora da casa. Meu dia começava agitado, pois ia pulando para o banho, buscando coragens para enfrentar o inimigo de todas as manhãs, aos berros de mamãe. Após o banho a luta era com o cabelo, que mais parecia uma juba de tão cheio e embolado que ficava. Minha irmã chorava para não me pentear e, eu chorava temendo ser penteada por ela, que com raiva de sua terrível tarefa, se vingava puxando meu cabelo, enfim, minha vida de criança era um pouco complicada.

Após essa aventura matutina, passava a mão na pasta escolar e, saía em disparada pelo caminho que me levaria mais rápido à escola, para não perder o leitinho com groselha, que era servido por Dona Democléia que não tinha pena em encher meu copo, ela sabia que minha barriguinha estava quase sempre vazia e, assim reforçava minha primeira refeição.

Após o café, íamos para o pátio e, formávamos uma fila e, em forma seguíamos em direção à sala de aula. Morria de medo da professora, cujo nome e fisionomia jamais esquecerei. Procurava sempre um lugar afastado para sentar-me mas, ela sentia em mim, o cheiro do medo, pavor e, me torturava colocando-me próximo a sua mesa e, a impressão que tinha era de que naquela sala só havia eu de aluna.

Ela andava de um lado ao outro da sala, falava e espumava enquanto eu tremia, com medo de que ela me fizesse alguma pergunta e, se eu errasse, certamente iria para o canto da sala, caroço de milho ou o maldito quarto escuro do qual tanto falavam alguns colegas.

Ela me perseguia e sem razão. Penso que ela deveria se lembrar de alguma mordida de cachorro quando olhava pra mim, por isso nunca me errava, estava sempre em sua mira.

Nesse dia, lembro-me muito bem da argüição da tabuada de multiplicação pelo número três, que não soube responder e, da régua estalando em suas mãos como que numa provocação. Naquele dia fiquei ajoelhada no caroço de milho sob um sol escaldante. Não sabia se o joelho doía mais que o pescoço, que já não agüentava mais ficar ereto. Chorei muito, muito mesmo pela crueldade de uma pessoa que não merecia ser chamada de professora e sim de megera.

Escola pra mim passou a ser tortura. Naquela época não tínhamos a flexibilidade que temos hoje, em decidir por uma mudança de turma, de professor, coisas assim desse tipo e, com isso tive de continuar na turma, indo à escola e não prestando atenção na aula, pois o medo inibia toda e qualquer atenção que pudesse ter.

Mamãe não sabia o que acontecia em sala de aula e se dissesse não acreditaria, pois ela sempre via a tal professora se despedindo dos alunos com beijinhos, quando nos levava até o portão do colégio na hora da saída.

A última maldade que ela me fez, não tive com esconder de mamãe, pois voltei para casa com a calcinha molhada e, ali mesmo na porta do colégio meu destino mudou. Mamãe queria saber, por que tinha feito xixi na calça, mas tinha medo de falar e acabar apanhando dela também. Aquela situação não podia continuar, tinha que ter um fim. Se isso acontecesse hoje, essa pessoa que se nomeou professora estaria fora da sala de aula e respondendo a um processo, por todo o mal causado a uma criança, e que repercute nos dias atuais.

Eu visitei sem querer o tal quarto escuro...

Ela pediu que os alunos colocassem sobre sua mesa os cadernos com a tarefa de casa. O azar parecia me acompanhar, havia algo de errado comigo.

Naquele dia deixei o caderno em casa e, isso foi uma festa pra ela. As palavras com as quais se dirigia a mim era de desleixada pra lá e, isso saía de sua boca, como se fossem elogios. Acho que foi a primeira vez em minha vida que respondi alguém. Lembro-me muito bem das palavras “Sua vaca gorda”. A turma caiu no riso e eu no tal quarto escuro, que tinha em seu interior uma enorme caveira feita de cartolina branca que se movimentava com o vento vindo através do telhado.

Minha mãe foi minha heroína.Tirou-me da escola e com a ajuda de uma outra professora foi ao órgão competente denunciar o maltrato que havia sofrido e após tudo isso, um vizinho conseguiu através da Feira da Providência uma bolsa de estudo, onde tive acesso ao Colégio Nossa Senhora do Rosário, no qual concluí o curso primário e ginasial.

Quando me referi no início de minhas memórias, sobre as marcas que ficam e deixam seqüelas, estava referindo-me ao medo de assistir a filmes de terror ou que tenha algum tipo de violência. Infelizmente os atos praticados a uma criança, que na época tinha apenas oito anos, são sentidos hoje após quarenta anos.

As palavras têm peso, os gestos e atitudes, deixam marcas profundas incapazes de serem apagadas, principalmente se estas partem de pessoas, que aprendemos desde cedo a amar, respeitar e adotarmos como nossas “TIAS”.


 



 

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