Ele era um homem forte, alto e de cabelos branquinhos, que mais parecia um pedacinho de nuvem sobre sua cabeça. Quase não conversava, era quieto, observador e determinado. Tinha por hábito caminhar durante a manhã pela areia fina do pequeno sítio onde morávamos e, com suas mãos sempre voltadas para as costas, em total solidão. Acredito que nesse momento ele se lembrava de sua terra natal, dos amigos, dos familiares e, quem sabe de um grande amor, que por lá deixou.

Meu avô veio da Síria ainda jovem e, fez do Brasil sua nova Pátria. Aqui constituiu família e se realizou profissionalmente abrindo seu próprio comércio : uma pequena fábrica de  espelhos.

Vovô era um homem bonito, inteligente e elegante até quando xingava mamãe. Gostava de ouvi seus palavrões, que na verdade, não era bem dos palavrões que eu gostava e sim do idioma, que ficava mais lindo ainda quando ousava cantar uma canção de origem Síria. Vovô era danado, casou-se várias vezes e, em cada casamento deixou uma sementinha do Haua, que proliferou e, hoje somos uma enorme família.

Eu era pequenina e, quando não estava sob a sombra do caramanchão, estava sentadinha na soleira da porta da casa, que ficava atrás da bela e vistosa casa do vovô. Ali ficava observando-o jogando paciência e essa mesma “paciência” acabava quando seu amigo Vicente chegava para jogar, em quase todas as tardes.

Quantas foram às vezes em que vi seu Vicente saindo aborrecido da mesa de jogo, devido às explosões de vovô, certamente ele, como todos os jogadores, não gostava de perder e, mesmo assim, na tarde seguinte seu Vicente chegava para mais uma briguinha de amigos.

Vovô era um homem bom e, eu não tive com ele a aproximação que tinha os outros netos. Ele brigava muito com mamãe e, isso nos afastou um pouco de seu convívio, mas sempre que podia, estava lá, mesmo que fosse de longe admirando aquele homem de olhar triste e andar calmo. As vezes, ele ficava parado diante ao pé de laranjeira, rasgava uma folha e levava-a ao nariz. Do que estaria ele se lembrando ao fazer esse gesto? Em que lugar esse aroma o levava?

Hoje, posso afirmar que seu coraçãozinho se desprendia do peito e retornava ao país onde nasceu e cresceu. Digo isso, pois hoje ao preparar um lanche com pão sírio, lembrei-me dele sentado à mesa cortando o pão e recheando-o com pasta de berinjela e nos ensinando a apreciar a comida síria e senti uma saudade antes não sentida. Uma folha arrancada de uma laranjeira, um pedaço de pão, coisas assim, que nos permite viajar por lembranças, reviver momentos que poderiam ter sido diferentes, bem vividos, para que não deixasse essa fenda no peito, essa sensação de vazio, essa ausência e, o sentimento de falha para com alguém.

Queria ter curtido mais meu avô, poder lembrá-lo sempre me contando uma história, ajudando-o, a dar alimento aos animais, colher com ele as verduras na horta ou retirar do imenso galinheiro, os ovos deixados durante a madrugada pelas galinhas.

Infelizmente não tivemos uma chance de sermos avô e neta, de poder sair de mãos dadas, fazendo e respondendo a mil e uma perguntas, essas perguntas bem humoradas que toda criança gosta de fazer aos mais velhos. Mas, como não desistia e, mesmo escondida  procurava vê-lo, assim não desisto e espero, em um Plano Maior, um dia sermos de fato avô e neta e, de mãos dadas caminhar sobre as nuvens e aprender com ele, o caminho para as estrelas.
 

 

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