─ Vamos!
Respondeu e saíram correndo para pegar um galho de
goiabeira, que seria o revolver imaginário.
─ Espera aí! Disse o primo malvado.
─ Eu sou o policial! Sou mais forte que você!
─ De novo? Ah, eu não quero ser outra vez o ladrão!
─ Vai sim, senão eu não brinco! Retrucou.
O menino de cabelo louro, tão louro que às vezes
não sabia distinguir o brilho de seu cabelo, da luz do sol, humildemente abaixou
a cabeça e mais uma vez concordou em ser o ladrão.
Distante, assistia a brincadeira dos primos e pude
perceber a covardia e a maldade, tomando conta de uma criança que ainda menino,
agia como um homem a escarnecer dos menos favorecidos.
O pé de laranjeira que nos dava o fruto mais
delicioso da região era a cadeia, onde certamente o menino de cabelos louros
ficaria preso por tempo indeterminado.

A casa do policial, que seria assaltada pelo
menino, era o espesso pé de manga carlotinha, que deitava seus galhos sobre a
areia fina do pequeno sítio onde morávamos.
Confortavelmente o severo policial desfrutava do
aconchego e calmaria do lar, quando de repente ouviu um barulho:
─ Quem está aí? Perguntou lançando mão na arma
presa no coldre.
─ Se não responder vou atirar!
Nesse momento o menino de cabelo louro tenta
fugir, pois percebe que seria impossível assaltar a casa do policial e, na fuga
acabou prendendo-se entre os galhos da casa imaginária, (a mangueira), sendo
assim uma presa fácil para o sedento policial.
─ Mãos para o alto, seu bandido, você está preso!
De agora em diante vai morar na minha cadeia e não
vai mais sair de lá! Disse, amarrando suas mãozinhas inocentes para detrás, na
costa franzina e ossuda.

E assim prende mais uma vez o menino, que sequer
teve o direito de defesa.
Aquela criança ficou sentada por um bom tempo sob
o pé de laranjeira. Não parecia estar brincando, pois a tristeza em seus olhos o
condenava.
Ele foi liberto graças a sua mãe que o chamou para
o lanche, caso contrário desceria a noite e ele, sob a laranjeira.
Nessa brincadeira de criança apenas um teve o
contentamento, apenas um brincou e o outro como sempre foi o objeto do desejo,
satisfazendo a vontade mesquinha de uma criança tão prepotente e má.
Eu queria poder ter visto aquela criança em seu
tempo de menino, como uma criança inocente, sem astúcia, sem maldade, sabendo
trocar, ceder o personagem da brincadeira para que o outro pudesse também ter a
satisfação de ser o policial.
Infelizmente ou não, a vida prega-nos peças
diariamente e acredito que ela, também gosta de brincar com os meninos malvados.
Hoje, de forma muito triste presencio a ironia do
destino na vida desses dois meninos...
O menino de cabelo louro é um lindo e respeitável
major, de uma modesta e pacata cidadezinha do interior.
O primo????
O primo que adorava ser policial????
Meu Deus!!!
Já estava esquecendo!
Amanhã é dia de visitas...