Às vezes não consigo entender, como algo que em tempos foi tão ruim, hoje pode ser lembrado, com muitas saudades...

 

Ontem nos levantamos bem cedo e como de costume, pegamos a estrada. Gostamos de fazer programas em família e, a coisa mais difícil é estarmos em casa nos fins de semana.

 

Sábado passamos um dia agradável em Muriqui e no domingo em Araruama, Saquarema, pontos totalmente extremos.

 

A viagem foi muito agradável e tranqüila. Adoro os verdes das árvores, ao longo do caminho, os boizinhos no pasto e aquele que sempre tem um gesto amigável, ao nos acenar na passagem e, isso sem contar as paradas para aquele lanche pelo simples fato de conhecermos as guloseimas da região.

 

Em uma dessas paradas, visitamos um galpão com artesanatos, cada um mais lindo que o outro. Em uma das partes, avistei as lindas panelas de barro da qual tanto me encanto quando vamos ao sítio Dom Zelitt’us apreciar a boa comida mineira, que fervilha sobre o fogão à lenha, dando aquele toque especial, como se estivéssemos mesmo em uma das fazendolas no interior da linda Minas Gerais.

 

Durante o trajeto, tantas outras panelas se exibiam na pista e isso foi o bastante para retornar no tempo e visualizar as cenas que até então eram terríveis, em minha infância....

 

Acordava bem cedo para ir à escola, enquanto me aprontava, mamãe em seu velho vestido surrado de tantas lutas, já estava diante, ao fogão à lenha preparando o nosso café que era adoçado com rapadura e que hoje, apesar do tempo, ainda o sinto nos sabores guardados em minhas lembranças.

 

Na época, tudo o que mais desejava era com um fogão a gás, como o que tinha na casa de minha tia Rosa, pois só assim poria um fim na triste tarefa de todas as tardes, ao retornar do colégio...

 

Assim que chegava a casa e, após um pequeno lanche, que nem sempre tinha, ia para o mato em busca de gravetos, para manter sempre o pequeno estoque de lenha.

 

Nem sempre os encontrava e era preciso quebrar alguns galhos, deixá-los ali no chão à espera da secagem.

 

Eu odiava fazer isso. Todos os dias a cena se repetia e, no meio do mato eu pedia a Deus um fogão a gás, para que minha tarefa, de toda a tarde pudesse ter fim.

 

Às vezes, deitava-me sobre o mato fino e ali ficava a fitar o céu, sonhando com uma vida bem diferente daquela miséria e, entre os imagináveis e impossíveis sonhos para a época, estava lá o meu fogão a gás...

 

Não sei por quanto tempo fiquei pedindo a Deus, mas sei que Ele ouviu minhas orações de criança responsável, com suas obrigações, pois naquele mesmo ano, tio Nelson deu de presente um fogão novinho para minha tia e o antigo, ele deu para mamãe.

 

Meu Deus, que felicidade aquele fogão, em nossa pequena cozinha de pau-a-pique! Ele era lindo, branquinho por fora e rajadinho por dentro.

 

Eu estava tão feliz, mas tão feliz que pensava que estava rica, afinal eu tinha agora um fogão que fazia tudo igualzinho, ao outro e sem precisar de gravetos.

 

Dizem que alegria de pobre termina cedo e a minha não durou muito tempo, pois nem sempre tínhamos dinheiro para comprar o gás e, quando esse faltava, lá ia eu outra vez em busca dos meus gravetos, para aquecer a água do banho e preparar o alimento.

 

Era uma vida difícil, dura e que hoje em meio, ao nosso passeio, refaço uma viagem tão doce àquela época.

Como pode meu Deus, algo que em minha infância foi terrível, hoje é relembrado com esse sabor de saudades, fluindo em meus sentidos o aroma e sabor da miséria...

 

Tantas foram as saudades, que no caminho sugeri ao meu esposo, que almoçássemos em um rancho mineiro e, ele como bom apreciador da comida mineira, não hesitou e lá fomos nós.

 

Na verdade não era bem a comida mineira que queria. Eu precisava ver de novo aquelas panelas fervilhando sobre o fogão e, sentir o cheirinho gostoso da lenha queimando, não apenas em minhas lembranças, mas diante de meus olhos... Que saudades da lenha de minha infância, dos matos que brincavam com minhas perninhas finas e às vezes, as deixavam com marcas e arranhões, que na época via como vingança dos galhos, temendo ir para o fogo. Seria isso uma vingança???

 

Não sei. Si apenas que precisava refazer a imagem feminina, com seus cabelos longos diante, ao fogão à lenha e secando o suor que escorria de seu rosto enquanto assava a broa de milho, a polenta e o refogadinho de caruru azedo.

 

Ah, quanta saudade da chaleira, que areava sabendo que no dia seguinte estaria preta novamente...

Saudade de ver as fagulhas dançando no ar, ao simples abanar da ventarola, pelas mãos frágeis de mamãe...

 

Saudade que me fez parar na estrada para comprar as belas panelas de barro e trazê-las para casa, que em breve estará sobre um mini fogão à lenha tão logo seja construído, por meu esposo que rir, ao dizer que não entende esses tipos de gostos que tenho.

 

Talvez eu as inaugure no dia dos pais, ao ter as filhas e genros, ao redor da mesa sentindo o cheirinho do feijão bem temperado, do torresminho pururuca, da farofa de bacon bem tostadinho e salvando na memória deles, algo que no futuro possa despertar em suas lembranças as saudades, que resolveram brotar dentro de mim...

 

Eu também não entendia esse meu gosto, não conseguia compreendê-los, até que resolveram transformar-se em doces saudades, como as que sinto agora do velho fogão à lenha de minha infância...

 

 

 

Saquarema

07/2006

 

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