Lembro muito bem da pequena casa pobre de pau a pique, onde passei minha infância e adolescência cercada de sonhos e fantasias. Lembro-me das roupas surradas e das saias, que não eram curtas como as que usavam as meninas da minha idade, pois esta ganhava de primas mais velhas e mamãe, pobre mamãe sempre dava um jeito para que elas se ajustassem ao meu corpo pequeno e franzino.

Ainda menina, com meus cabelos encaracolados tinha por hábito ficar horas  deitada,  sobre o banco de madeira, fincado ao chão  pelas mãos cansadas, porém habilidosas de minha mãe. O banco ficava sob o caramanchão da velha videira, que nos proporcionava uma deliciosa sombra apesar de tão cansada como aparentava.

Quando deitava no banco ficava a contemplar  as folhas amareladas, que encobriam os arames prendendo-se a eles quase, que numa súplica temendo uma queda ao chão.

Eu menina senhora, perdia-me ao olhar as ramagens quase sem vida, e entre elas podia ver os belos e fartos cachos de uvas que nunca estiveram ali. Eu os via, pois acreditava, em sua existência. Eu idealizava tão certo de colheita, assim como eu, todas as manhãs no mesmo banco quase que num ritual, para ver os tão sonhados cachos de uvas.

Muitas foram às vezes, em que algumas folhas desprendiam-se do arame e arrastadas pelo vento morno das manhãs de outono a um destino, cujo tempo apenas sabia.

A pobre videira dava sinais de envelhecimento expondo seus galhos rachados e, ressequidos pelos longos anos a espera de frutos que não foram gerados.

Cresci sob a sombra do velho caramanchão sonhando com os cachos de uva, que pude até ver em minhas ilusões, mas não pude alcançá-los. Com o decorrer dos dias meu avô, um homem determinado, sério em suas atitudes resolve acabar com o caramanchão, pois a videira não prestava para dar frutos apesar das podas e enxertos feitos por ele.

Certa manhã o avistei caminhando em direção à videira tendo em mãos uma pequena foice. Desolada fiz meu trajeto quase que mecânico tendo o peito apertado avisando-me da separação. Sentei-me no banco e dessa vez meu olhar era todo voltado para os movimentos de meu avô, que certamente deveria estar triste, com que iria fazer.

Aquele homem de cabelos brancos parou a meu lado e acariciou meus cachos, olhou para o caramanchão e, indo de encontro ao caule da pobre videira, num só gesto ceifou-lhe a vida. A cada investida, meu avô ceifava dentro de mim o único sonho que restara: Colher os cachos de uvas.

Os ramos eram abatidos e puxados, para o canto da cerca formando um único monte, que mais tarde seria queimado. Meu avô só se preocupou com a improdutividade da videira. Esqueceu-se da sombra que alimentava meus sonhos e do refúgio quando buscava por socorro.

Os anos tiveram pressa de passar. Cresci e, de menina sonhadora a adolescente sem esperanças, hoje, mulher madura mergulhada em sonhos.

Nada restou no lugar do velho caramanchão a não ser o sol a esquentar com seus raios a areia fina. Tal qual  ao  abrigo de videira, abriguei-me  à sombra de um amor, que idealizei e sobre ele sonhei, em colher os frutos, que pude ver e sentir sua essência. Tal qual  os cachos de uva, os idealizei, mas não consegui tocá-lo. Era um amor novo, não velho como a videira, estava no auge da descoberta, da busca incansável, no entanto, era cego. Cego e pequeno, pois não alcançou a grandeza de meu amor; não sonhou os meus sonhos, não sentiu fome de viver e nem sede de amar.

Dessa videira a dois, colhi frutos amargos, que deixaram marcas profundas e, um gosto de cica em meus lábios. Como  a videira, ceifastes meus sonhos, minhas ilusões e por que não dizer minhas esperanças.

Hoje ao lembrar o velho caramanchão, refaço a imagem de meu avô arrastando os galhos para serem queimados. Olho para mim e vejo o tanto que me arrastei, o quanto que me feri, o quanto mutilei minha vida a espera desse amor. Não tenho certeza que foi eu quem se enganou, deixando-se levar por promessas não feitas como as folhas, que foram levadas pelo vento sem saber o destino a ela  reservado.

Não porei no meu corpo fogo a queimar-me. Jamais serei cinzas arrastadas pelo vento. A videira em meu peito está viva e nenhuma tempestade, por pior que seja não a destruirá. Ela florescera ainda que seja nas tardes de outono, pois não morrerei de amor, sobreviverei a ele como sobrevivem os príncipes e princesas entre as páginas dos livros de histórias. Farei de minha sombra, minha proteção e, nela não chegarás, pois destruístes um amor, que construí com zelo, carinho, dedicação e espera. Espera essa que não mais que trinta minutos o destruiu.

Hoje lamento. Lamento por você, que esteve ao meu lado e não me viu, que caminhou comigo e não seguiu meus passos, tocou-me e não me sentiu, por te entoado a ti uma canção, e não ter entendido a melodia entoada. Lamento lembrar você como uma cruel lembrança, que certamente esquecerei tão logo me abrigue à minha própria sombra temendo talvez me expor aos raios quente de um novo sol.


 

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