Nádya Haua

Era uma vez...

Uma cadela de nome Boca negra.

Boca negra tinha esse nome por ter o céu da boca todinho preto. Esse nome foi dado a ela, por quatro crianças, que a adotaram desde pequenina.

O tempo passou e Boca Negra foi crescendo, ficando bonita e muito inteligente, isso mesmo, tão inteligente que até parecia gente.

Obediente, ela obedecia sempre que as crianças falavam. Quando a mandava deitar corria para seu cantinho e lá ficava até que lhe desse outra ordem.

Boca Negra prestava atenção em tudo. Tomava conta das crianças quando iam à escola e ficava no portão esperando que retornassem  à casa.

Por ser uma cadela muito esperta, percebeu que as crianças eram muito pobres e que precisavam de ajuda e, ficava olhando para os pés descalços por não terem chinelos. Então, em seu mundo pequeno pensava:

― É preciso ajudar essas crianças, afinal, se não fossem elas eu teria virado sabão!

Boca Negra ficou adulta e os meninos esqueceram de lhe ensinar bons hábitos da educação, e isso logo foi percebido quando apareceu na varanda da casa uma leiteira, que por sinal, era da casa vizinha.

― Crianças venham aqui agora! Gritou a mãe 

― O que mãe, perguntaram quase que em courinho. 

― Foram vocês que trouxeram essa leiteira pra cá? 

― Não mãe, responderam. 

As crianças eram pobres, mas sabiam que era muito feio pegar as coisas que não lhes pertenciam, portanto, não foram eles os autores da façanha, só que esqueceram de perguntar à cadela mais faceira se por acaso a idéia do furto partira dela, como ninguém perguntou, ela permaneceu quieta em seu canto com um olhar maroto, que nenhuma outra cadela possui e, finalmente a dona da leiteira apareceu e foram pedidas mil desculpas.

Todos os dias a mesma história se repetiam: escola, casa, correria e risadas das crianças, que apesar das dificuldades sentiam-se felizes.

Passados alguns dias, adivinhe o que acontece ? outra leiteira ? não! Um par de chinelos, isso mesmo, um par de chinelos de dedo. 

Boca Negra saía durante a noite e trazia presentes, de forma errada para seus amiguinhos e, não adiantava brigar com a cadela ou deixá-la amarrada durante a noite, pois ela iria chorar e as crianças a soltariam e, com isso, Boca Negra continuou aprontando. 

O tempo passou mais uma vez e a cadela cresceu mais e mais e seu pêlo brilhava sob a luz do sol e mais parecia um doce de caramelo de tão bonito que era. 

Agora Boca negra se tornara independente. Saía cedo de casa e voltava tarde da noite deixando os meninos preocupados e, foi no carnaval que ela sumiu durante quatro dias, retornando no último dia, com um andar bem lento e um ferimento na pata traseira. Imagina-se que ela que ela pulou carnaval, embora não se sabe em qual companhia. Sabe-se porém, que  algo estranho começou a aparecer em Boca Negra. 

A cada dia ela engordava mais, seu corpinho tomava forma diferente e os meninos não sabiam o que estava se passando, até que sua mãe os alertou para que não batesse e nem tivessem brincadeiras brutas com a cadela, pois ela estava esperando filhotinhos. Boca Negra seria mãe. 

Não houve gravidez mais cheia de cuidados quanto à da cadela mais charmosa do lugar. 

Com a gravidez, todos pensavam que ela havia deixado os maus hábitos, engano, ela continuava trazendo para casa os tais presentes, para seus amiguinhos, que tão logo devolviam aos verdadeiros donos. 

― Saia daqui, cadela ladra! Dizia dona Margarida correndo, com um cabo de vassoura atrás da cadela sapeca, que se arrastava com o peso da barriga e, tão logo se deitou em seu cantinho bem embaixo da janela do quarto da menina Magaly. 

Passaram-se os períodos da gravidez de Boca Negra e, foi em dia de muito sol, embaixo do tanque, que ela se abrigou para ter seus filhotinhos.

― Saiam daqui crianças! Disse a mãe. 

― Por que não podemos ver? 

― Isso não é coisa para criança ver, explicava a mãe. 

De vez em quando, um curioso ia lá na área de serviço ver se havia nascido algum cachorrinho e, para surpresa de todos, lá estava ele, isso mesmo, um lindo cachorrinho que mais parecia uma trouxinha de pano, todo pretinho e de olhinhos inchados. Minutos depois, nasceram os outros cincos. Eram quatro fêmeas e dois machos. 

O problema agora era escolher os nomes  e, isso para as crianças foi um tanto fácil, pois cada um ficou responsável em dar nome a um deles. 

Charmosa era toda amarelinha, malhada listra uma listra marrom linda no corpo, Dengosa era a mais preguiçosa  e, havia também o Dengoso, que era tão preguiçoso quanto à irmã. 

Tigresa não teve sorte  e morreu no dia seguinte e, peludo como o próprio nome diz, era o mais fofinho de todos. 

O tempo mais uma vez passou e os cachorrinhos já estavam bem crescidos e, já faziam suas gracinhas. Era dezembro, mês do natal e de ganhar presentes, mas, como ganhar presentes se as crianças eram pobres e ninguém se lembrava deles? 

Boca negra parecia tranqüila, era agora a mãe de cinco filhotes e queria dar bom exemplo a eles, afinal, uma mãe tem de educar seus filhos. 

Era natal e, o olhar triste estava estampado nos olhos das quatro crianças que sabiam, que aquele seria mais um natal sem ceia, sem roupas novas, sem a presença de papai Noel. 

Magaly era a menina sonhadora e, como sonhadora, sonhava com Papai Noel, em seu trenó trazendo a tão esperada boneca de cabelos loiros. Pobre menina, a vida para ela não passava de um sonho e, o pior de tudo: um sonho em preto e branco, que nem colorido podia ser. 

Na pequena sala havia uma árvore de natal feitos, com galhos secos e enfeitados com caixa de fósforo no lugar de bolas coloridas. 

As crianças estavam sentadas no sofá à espera sabe lá de quê e, dava dor no peito em ver o jeito triste deles na noite mais linda e alegre do ano. 

Na varanda da pequena casa, Boca Negra acariciava os filhotes, que não entendiam o que se passava com seus amiguinhos, que não tinham ânimo para brincar. O espírito de natal os deixou tristes, pois sabiam que o velho Noel não os visitaria, mais uma vez. 

Como havia explicado no início da história, Boca Negra era tão inteligente, que mais parecia gente e, agora comprovarei sua inteligência. 

Nessa noite enquanto as crianças dormiam, Boca Negra parecia ler o pensamento da menina, que sonhava com a boneca de cabelos loiros. Deixou seus filhotes adormecerem para que pudesse sair e, para que mais tarde não viessem a se envergonhar de sua atitude, que naquele momento não era a forma correta de agir. 

Foi então, que Boca Negra saiu e foi à casa da vizinha. Havia muita gente na festa e certamente não seria percebida por ninguém e, assim foi feito. 

A cadela era muito esperta e compreendia toda tristeza das crianças e, foi na noite de natal que Boca Negra se transformou em Papai Noel da menina sonhadora. Ela  não esquecera os maus hábitos e, naquela noite trouxe para a menina a boneca tão sonhada, tão desejada e a deixou embaixo da janela do quarto onde dormia. 

Na manhã do dia vinte e cinco, ao acordar e ver aquela boneca bem ali em sua janela, não acreditou no que seus olhinhos estavam vendo e pensou estar sonhando,pois tudo era muito confuso para seu entendimento. 

― Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, Papai Noel trouxe minha boneca! Gritava a menina de tanto contentamento. 

― Papai Noel? pensou a mãe. 

Mal conseguia alimentá-los, quanto mais dar presentes. Foi então, que ao chegar  no quarto a  mãe também não acreditara no que acabara de ver. 

― Como essa boneca veio parar aqui? Perguntou. 

Boca Negra, só poderia ter sido ela. Havia pegado a boneca da casa vizinha, pois ainda estava na caixa. 

A mãe da menina não podia fazer nada a não ser esperar que a dona da boneca aparecesse e, enquanto isso não acontecia, a menina realizou o sonho de ter nos braços a sua boneca. 

Daquele dia a diante Boca negra ficou conhecida como a cadela Papai Noel e, ninguém

poderia recriminá-la por esse gesto, que apesar de errado, foi o mais lindo, o mais sublime pois ela conseguiu ler nos olhos da menina o desejo de ter sua boneca e, por umas horas fez uma criança feliz, mesmo sabendo que a dona da boneca apareceria.  

Boca Negra além de ter sido o Papai Noel das crianças, foi uma cadela amiga, que através de seu gesto agradecia por terem a adotado e cuidado dela  e de seus filhotes. Esse era o modo de retribuir todo o amor que lhe dedicara.Mais uma vez o tempo passou os meninos cresceram, a cadela estava bem mais velha e já tornara-se avó e, como nada é eterno, Boca Negra deixou nos olhos, agora, dos adolescentes uma tristeza e uma saudade, que é sentida até hoje. Boca Negra morreu. Agora ela descansa.

 

 

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