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Era uma vez...
Uma cadela de nome Boca negra.
Boca negra tinha esse nome por ter o céu da boca todinho
preto. Esse nome foi dado a ela, por quatro crianças, que a adotaram desde pequenina.
O tempo passou e Boca Negra foi crescendo,
ficando bonita e muito inteligente, isso mesmo, tão inteligente que até parecia gente.
Obediente, ela obedecia sempre que as crianças falavam.
Quando a mandava deitar corria para seu cantinho e lá ficava até que lhe desse outra
ordem.
Boca Negra prestava atenção em tudo. Tomava conta das
crianças quando iam à escola e ficava no portão esperando que retornassem à casa.
Por ser uma cadela muito esperta, percebeu que as crianças
eram muito pobres e que precisavam de ajuda e, ficava olhando para os pés
descalços por não terem chinelos. Então, em seu mundo pequeno pensava:
― É preciso ajudar essas crianças, afinal, se não fossem
elas eu teria virado sabão!
Boca Negra ficou adulta e os meninos esqueceram de lhe
ensinar bons hábitos da educação, e isso logo foi percebido quando apareceu na varanda da
casa uma leiteira, que por sinal, era da casa vizinha.
― Crianças venham aqui agora! Gritou a mãe
― O que mãe, perguntaram quase que em courinho.
― Foram vocês que trouxeram essa leiteira pra cá?
― Não mãe, responderam.
As crianças eram pobres, mas sabiam que era muito
feio pegar as coisas que não lhes pertenciam, portanto, não foram eles os autores da
façanha, só que esqueceram de perguntar à cadela mais faceira se por acaso a idéia do
furto partira dela, como ninguém perguntou, ela permaneceu quieta em seu canto com um olhar
maroto, que nenhuma outra cadela possui e, finalmente a dona da leiteira apareceu e
foram pedidas mil desculpas.
Todos os dias a mesma história se repetiam:
escola, casa, correria e risadas das crianças, que apesar das dificuldades sentiam-se felizes.
Passados alguns dias, adivinhe o que acontece ?
outra leiteira ? não! Um par de chinelos, isso mesmo, um par de chinelos de dedo.
Boca Negra saía durante a noite e trazia presentes, de
forma errada para seus amiguinhos e, não adiantava brigar com a cadela ou deixá-la amarrada
durante a noite, pois ela iria chorar e as crianças a soltariam e, com isso, Boca Negra
continuou aprontando.
O tempo passou mais uma vez e a cadela cresceu mais e mais
e seu pêlo brilhava sob a luz do sol e mais parecia um doce de caramelo de tão bonito
que era.
Agora Boca negra se tornara independente. Saía
cedo de casa e voltava tarde da noite deixando os meninos preocupados e, foi no
carnaval que ela sumiu durante quatro dias, retornando no último dia, com um
andar bem lento e um ferimento na pata traseira. Imagina-se que ela que ela pulou carnaval, embora não se sabe
em qual companhia. Sabe-se porém, que algo estranho começou a aparecer em Boca
Negra.
A cada dia ela engordava mais, seu corpinho tomava forma
diferente e os meninos não sabiam o que estava se passando, até que sua mãe os
alertou para que não batesse e nem tivessem brincadeiras brutas com a cadela, pois ela estava
esperando filhotinhos. Boca Negra seria mãe.
Não houve gravidez mais cheia de cuidados quanto à da
cadela mais charmosa do lugar.
Com a gravidez, todos pensavam que ela havia
deixado os maus hábitos, engano, ela continuava trazendo para casa os tais presentes, para seus
amiguinhos, que tão logo devolviam aos verdadeiros donos.
― Saia daqui, cadela ladra! Dizia dona Margarida
correndo, com um cabo de vassoura atrás da cadela sapeca, que se arrastava com o peso da barriga
e, tão logo se deitou em seu cantinho bem embaixo da janela do quarto da menina
Magaly.
Passaram-se os períodos da gravidez de Boca Negra
e, foi em dia de muito sol, embaixo do tanque, que ela se abrigou para ter seus filhotinhos.
― Saiam daqui crianças! Disse a mãe.
― Por que não podemos ver?
― Isso não é coisa para criança ver, explicava a
mãe.
De vez em quando, um curioso ia lá na área de serviço ver
se havia nascido algum cachorrinho e, para surpresa de todos, lá estava ele, isso
mesmo, um lindo cachorrinho que mais parecia uma trouxinha de pano, todo
pretinho e de olhinhos inchados. Minutos depois, nasceram os outros cincos. Eram quatro fêmeas e dois
machos.
O problema agora era escolher os nomes e,
isso para as crianças foi um tanto fácil, pois cada um ficou responsável em dar nome a um deles.
Charmosa era toda amarelinha, malhada listra uma listra
marrom linda no corpo, Dengosa era a mais preguiçosa e, havia também o Dengoso, que era
tão preguiçoso quanto à irmã.
Tigresa não teve sorte e morreu no dia seguinte e, peludo
como o próprio nome diz, era o mais fofinho de todos.
O tempo mais uma vez passou e os cachorrinhos já estavam
bem crescidos e, já faziam suas gracinhas. Era dezembro, mês do natal e de ganhar
presentes, mas, como ganhar presentes se as crianças eram pobres e ninguém se lembrava deles?
Boca negra parecia tranqüila, era agora a mãe de cinco
filhotes e queria dar bom exemplo a eles, afinal, uma mãe tem de educar seus filhos.
Era natal e, o olhar triste estava estampado nos olhos das
quatro crianças que sabiam, que aquele seria mais um natal sem ceia, sem roupas novas, sem
a presença de papai Noel.
Magaly era a menina sonhadora e, como sonhadora, sonhava
com Papai Noel, em seu trenó trazendo a tão esperada boneca de cabelos loiros. Pobre
menina, a vida para ela não passava de um sonho e, o pior de tudo: um sonho em preto e branco,
que nem colorido podia ser.
Na pequena sala havia uma árvore de natal feitos, com
galhos secos e enfeitados com caixa de fósforo no lugar de bolas coloridas.
As crianças estavam sentadas no sofá à espera sabe lá de
quê e, dava dor no peito em ver o jeito triste deles na noite mais linda e alegre do ano.
Na varanda da pequena casa, Boca Negra acariciava os
filhotes, que não entendiam o que se passava com seus amiguinhos, que não tinham ânimo para
brincar. O espírito de natal os deixou tristes, pois sabiam que o velho Noel não os
visitaria, mais uma vez.
Como havia explicado no início da história, Boca Negra era
tão inteligente, que mais parecia gente e, agora comprovarei sua inteligência.
Nessa noite enquanto as crianças dormiam, Boca
Negra parecia ler o pensamento da menina, que sonhava com a boneca de cabelos loiros. Deixou
seus filhotes adormecerem para que pudesse sair e, para que mais tarde não viessem a
se envergonhar de sua atitude, que naquele momento não era a forma correta de agir.
Foi então, que Boca Negra saiu e foi à casa da vizinha.
Havia muita gente na festa e certamente não seria percebida por ninguém e, assim foi
feito.
A cadela era muito esperta e compreendia toda tristeza das
crianças e, foi na noite de natal que Boca Negra se transformou em Papai Noel da menina
sonhadora. Ela não esquecera os maus hábitos e, naquela noite trouxe para a menina a
boneca tão sonhada, tão desejada e a deixou embaixo da janela do quarto onde dormia.
Na manhã do dia vinte e cinco, ao acordar e ver aquela
boneca bem ali em sua janela, não acreditou no que seus olhinhos estavam vendo e pensou
estar sonhando,pois tudo era muito confuso para seu entendimento.
― Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, Papai Noel trouxe minha
boneca! Gritava a menina de tanto contentamento.
― Papai Noel? pensou a mãe.
Mal conseguia alimentá-los, quanto mais dar presentes. Foi
então, que ao chegar no quarto a mãe também não acreditara no que acabara de ver.
― Como essa boneca veio parar aqui? Perguntou.
Boca Negra, só poderia ter sido ela. Havia pegado
a boneca da casa vizinha, pois ainda estava na caixa.
A mãe da menina não podia fazer nada a não ser esperar que
a dona da boneca aparecesse e, enquanto isso não acontecia, a menina realizou o sonho
de ter nos braços a sua boneca.
Daquele dia a diante Boca negra ficou conhecida como a
cadela Papai Noel e, ninguém
poderia recriminá-la por esse gesto, que apesar de errado,
foi o mais lindo, o mais sublime pois ela conseguiu ler nos olhos da menina o desejo de ter
sua boneca e, por umas horas fez uma criança feliz, mesmo sabendo que a dona da boneca
apareceria.
Boca Negra além de ter sido o Papai Noel das crianças, foi
uma cadela amiga, que através de seu gesto agradecia por terem a adotado e cuidado dela
e de seus filhotes. Esse era o modo de retribuir todo o amor que lhe dedicara.Mais uma
vez o tempo passou os meninos cresceram, a cadela estava bem mais velha e já tornara-se
avó e, como nada é eterno, Boca Negra deixou nos olhos, agora, dos adolescentes uma
tristeza e uma saudade, que é sentida até hoje. Boca Negra morreu. Agora ela descansa.
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