
Hoje é dia de faxina, de
faxinar minha vida e, dela retirar tudo o que se estragou, todos os excessos,
todas as mágoas, dores e ressentimentos...
Não sei por quanto tempo comportei-me como
uma adolescente ridícula, que esperançosa, acredita que na vida, tudo é para
sempre.
Sinto-me encorajada e
determinada a dar o primeiro passo, para libertar em mim, teu fantasma que sem
luz, reflete a escuridão de meus dias.
Começarei então pelas
mágoas, que são infinitas. Mágoas ainda vivas, mágoas que fincaram raízes,
quando sem mais, partiu deixando comigo, a promessa de retornar e, sem retorno,
juntou-se à mágoa, a ansiedade, a busca por notícias e as cartas que nunca
chegaram e, como respostas, a desesperança de um dia qualquer poder olhar em
teus olhos e relembrar-te o quanto eu te amo.
Tantas foram às vezes em
que à janela debrucei-me a tua espera e vencida pelo cansaço, ali mesmo
amanhecia e nesse amanhecer, a certeza de que não mais voltaria.
Eu te escrevi uma carta,
uma última carta, que não pude enviar, pois a sepultei na gaveta de meu tempo,
onde morreria asfixiada tal qual as esperanças dentro de mim e nela, falei das
buscas incansáveis, em meio às estrelas nas noites claras de luar, onde no
infinito te procurava...
Falei das profundezas do
oceano sem fim, onde mergulhei certa de que poderias ter caído do céu na
imensidão azul e, se transformado em uma linda estrela do mar.
Não, não o encontrei e,
loucamente emergir das profundas águas e, incansável percorrir montes e vales,
florestas e campos, rios e desertos, céus e infernos na esperança de te
encontrar...
Hoje em minha faxina,
retirarei da gaveta, a carta amarelada, tão cristalizada, que se desfaz ao mais
leve toque, assim como o desgastado e amarelado sonho da espera, dentro de mim.
Releio minha carta a ti, que nunca recebestes e antes de queimá-la, posso ver
ainda nítida, a linha na qual afirmo ser você minha alma gêmea separada tão logo
nosso nascimento.
É impossível conter o
choro contido por muito tempo em minha garganta e, não alagar em prantos, a
carta trêmula em minhas mãos. Eu só queria dizer do meu amor, do quanto te amei,
do quanto te amo e, do tempo que certamente irei te amar e, o quanto dói em
mim, destruir tuas lembranças, uma simples carta a ser incinerada, já que a
amnésia não pretende visitar-me tão cedo. Sendo assim, só estarei destruindo uma
das pontes que me levam a você e não você, presença viva em minha vida.
Esta também , será mais um
relato que faço de um tempo que não houve, de um momento não sentido, de um
instante não vivido, apenas escrito e aprisionado em minhas memórias, que por
infelicidade do destino, jamais a lerá.
Minha faxina começa agora
ao som de Luis Miguel “Sin Ti”, retirando de dentro de mim, uma a uma, as
dores, as mágoas, as lágrimas derramadas e o amargo doce de um amor, o qual não
só dediquei as mais belas estrelas, mas sim todo infinito céu.